Doeu ouvir sobre o fechamento de 298 lojas e quase 3.000 funcionários das Casas Bahia. Fundada em 1957 em São Caetano do Sul, a empresa tem forte conexão com todos os brasileiros. Quem não se lembra das campanhas publicitárias nos programas de televisão aos finais de semana? O pagamento das parcelas no carnê amarelinho e o mascote Baianinho, em desenho 2D, faziam parte da rotina.
Hoje a situação é bem diferente. Para entender como a empresa chegou ao cenário atual, vamos no tempo e entender o que aconteceu. A resposta está em algumas situações. Leia até o fim.
História
Criação das Casas Bahia — Por incrível que pareça, nossa história começa muito longe da Bahia e do Brasil: na Polônia. Foi ali que nasceu, em 1923, Samuel Klein, um judeu do vilarejo de Zaklików, localizado a cerca de 80 km da cidade de Lublin. Já cedo aprendeu a se virar – e da pior forma possível. Aos 19 anos, foi preso e mandado, junto com o pai, para o campo de concentração de Maidanek, em seu país natal. Em 1944, Klein conseguiu fugir durante uma transferência de presos e chegou a ficar um tempo no próprio país, seguiu para a Alemanha, onde conheceu sua esposa Ana e teve seu primeiro filho, Michael. Sofrimento da guerra acabou e a família deixou o hemisfério norte para trás e veio para a América do Sul, se instalando primeiro na Bolívia, onde ficaram por pouco tempo devido à guerra civil do país. Finalmente, eles se mudaram para o Brasil, passando pelo Rio de Janeiro até Samuel ouvir, dinheiro mesmo estava em São Paulo, se estabeleceu em São Caetano do Sul, no ABC Paulista.
Com 6 mil dólares no bolso, decidiu trabalhar com o que mais sabia fazer: Vender. E deu para comprar casa, charrete e a carteira de 500 clientes. Colocou na charrete, encheu-a com cobertores, roupas de cama, mesa e banho, que passaram a ser vendidas de porta em porta pela cidade. A maioria dos clientes eram imigrantes simples: operários, domésticas, gente sem acesso a cartão de crédito ou espécie de dinheiro à vista, mas precisando adquirir produtos de uso pessoal. Então, como vender? O antigo vendedor de mascate pensou em algo simples, mas único no varejo brasileiro, ganhou a clientela: a venda a prestações no carnê, direto na loja e sem banco. Deu tão certo que, 5 anos depois, instalou a primeira loja e não esqueceu dos primeiros clientes, adotando o nome: Casas Bahia.
Da Expansão até a tela da televisão — Manteve o foco e expandiu pelo estado de São Paulo, engolindo concorrentes como Piratininga, Tamacavi e Ultralar. Em 1995, chegou ao Rio de Janeiro por meio da aquisição da tradicional rede carioca Casas Garson.
Hiperinflação finalmente chegou ao fim com o Plano Real. Os brasileiros começaram a comprar mais eletrodomésticos, e o futuro da empresa também estava na televisão. As Casas Bahia passaram a dedicar cerca de 3% do faturamento anual às campanhas publicitárias. Símbolo desde os anos 60/70, o Baianinho marcou as minhas e suas memórias.
O futuro estava na internet — mas as Casas Bahia demoraram a chegar
Indo direto aos anos 2000, em 2007, um funcionário já dizia algo que, anos depois, soaria quase como uma previsão: o futuro estava no e-commerce.
Só que perceber a mudança não significava, necessariamente, acompanhá-la. Durante décadas, as Casas Bahia construíram seu império com centenas de lojas espalhadas pelo Brasil. Quando o comércio começou a migrar para a internet, as Casas Bahia carregavam uma estrutura gigantesca, criada para outro tempo completamente diferente. O seu e-commerce surgiu apenas em 2009. Naquele momento, comprar pela internet começava a deixar de ser novidade e se transformava, aos poucos, em um novo hábito.
Enquanto isso, concorrentes construíam operações mais enxutas. Sem centenas de lojas físicas para manter, sobrava mais espaço para investir em tecnologia, logística e preços competitivos.
De repente, a concorrência deixou de estar apenas na rua ao lado. Bastavam alguns segundos e uma busca no celular para comparar preços entre dezenas de lojas.
Quando o dinheiro ficou caro demais
Mas o atraso no digital é apenas uma parte dessa história.
No coração do problema existe outro fator: os juros altos.
Geladeira, fogão, televisão e sofá dificilmente são compras pequenas. Para milhões de brasileiros, levar esses produtos para casa sempre dependeu de uma coisa: crédito. Justamente aí estava uma das maiores forças das Casas Bahia — e, mais tarde, uma de suas maiores vulnerabilidades.
Com a alta da Selic a partir de 2021, o dinheiro ficou mais caro nos dois lados. Financiar as operações passou a custar mais, enquanto o consumidor, muitas vezes já endividado, começou a evitar novas parcelas. Trocar a geladeira podia esperar. Comprar um sofá novo deixou de ser prioridade. Até aquela televisão desejada ficou para depois.
Quando o crédito encolhe, o impacto chega rapidamente a quem vive de vendas parceladas. No caso das Casas Bahia, atingiu justamente o modelo que ajudou a transformar a simples operação de São Caetano do Sul em uma das maiores varejistas do Brasil.
O futuro das Casas Bahia?
Depois de entender como a companhia chegou até aqui, surge aquela pergunta inevitável: o que precisa mudar para recuperar força no varejo brasileiro?
1. Transformar as lojas em showrooms
Grandes espaços repletos de vendedores podem deixar de ser o centro da operação. Unidades menores, organizadas como showrooms, permitiriam que o cliente conhecesse, testasse e comparasse os produtos antes de finalizar a compra pelo celular.
Nesse modelo, o funcionário também teria outra função. Em vez de simplesmente vender, atuaria como consultor, explicando as diferenças entre os modelos e ajudando na escolha.
2. Levar a demonstração para as redes sociais
A televisão já foi responsável por transformar as Casas Bahia em uma marca conhecida nacionalmente. Hoje, o palco mudou.
Instagram, TikTok e YouTube podem cumprir parte desse papel com demonstrações, comparações e apresentações. Mostrar uma geladeira funcionando, comparar duas televisões ou explicar qual celular oferece melhor custo-benefício pode ser mais eficiente do que simplesmente publicar uma oferta.
3. Transformar a rede física em vantagem
Centenas de unidades espalhadas pelo Brasil representam um custo enorme, mas também podem ser um diferencial.
Esses espaços podem funcionar simultaneamente como pontos de retirada, troca, atendimento, demonstração e apoio logístico. Uma compra feita pelo celular poderia ser retirada rapidamente em uma unidade próxima, aproximando a experiência digital da presença física.
4. Depender menos do crédito
O parcelamento ajudou a construir a história das Casas Bahia, mas também deixou o negócio muito exposto aos juros.
Diversificar as formas de pagamento, estimular compras à vista e ampliar receitas provenientes de serviços pode reduzir essa dependência. Quanto menos o resultado depender exclusivamente de longas prestações, menor será o impacto de uma nova alta do custo do dinheiro.

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